Cinco perguntas sobre a escrita: Olívia Gutierrez

03 de dezembro de 2018

Olívia Gutierrez vai lançar amanhã, no dia 04 de dezembro, o seu primeiro livro de poesias, estar onde não estou (Crivo Editorial, 2018). O lançamento será na Livraria do Belas, Rua Gonçalves Dias, 1581, Belo Horizonte/MG. Aqui ela responde as cinco perguntas sobre a escrita.

1. Como se iniciou e se estabeleceu a sua relação com a leitura e com a escrita?
A leitura está comigo desde muito pequena. Eu pedia que meus pais me contassem histórias e eles contavam. Acho que os livros propriamente foram aparecendo à medida em que eles sentiam a necessidade de ampliar o repertório. Então desde que me lembro existem livros na minha vida, fossem vindos das coleções infantis que eu ganhava de todos os lados, ou da Biblioteca Pública da Praça da Liberdade, porque meu pai sempre foi fiel às bibliotecas e acabava me levando junto. Eventualmente minha mãe e meu pai se cansavam de ler os livros pra mim, mas eu me independentizei neste aspecto ali pelos 4 anos de idade, e desde então a relação com a leitura passou por muitas transformações, mas nunca mais desapareceu.
Já a escrita não veio assim da mesma forma. É óbvio que eu tive diários e blogs (que eram diários), mas eu nunca tinha pensado em escrever como uma coisa. Pensava em escrever para contar histórias, e eu não conto histórias, não invento histórias. Porque eu venho dos contos de fadas, das fábulas, das mitologias e dos romances. Foi nesse mundo literário que eu habitei grande parte da vida. Eu comecei a pensar em escrever quando comecei a ler outras coisas que me faziam pensar que eu poderia, ou eu queria, escrever aquilo. Ao mesmo tempo, eu também tinha retomado a escrita de diário, mas totalmente diferente do diário de adolescente: ao invés do relato, ou de tratar o diário como uma pessoa com quem eu estivesse conversando ("querido diário"), eu estava usando aquele lugar para pensar. Mas tudo isso estava disperso em mim até o momento em que te conheci, Laura, porque eu não sabia o que eu escreveria se escrevesse. E então entendi que a ideia do "aprenda a fazer, fazendo" também era aplicada à escrita (parece óbvio, mas não era, não), e resolvi dar as caras no Estratégias.

2. Como, no momento, funciona o ofício da escrita para você?
Acho até estranho responder essa pergunta, que tem esse "no momento", como se a escrita (escrita como uma coisa) fosse algo de longa data. Não é. Eu comecei a escrever em janeiro deste ano, quando fiz uma oficina com a Flávia Péret. Então o que posso dizer é que fui entendendo ou construindo o que é a escrita pra mim: entendo escrever como pensar. Isso quer dizer que eu fico remoendo as ideias e as palavras (não vou responder perguntas sobre signos, por favor). Costumo tomar notas esparsas e depois vou ligando umas notas a outras, como se eu tentasse entender algo, ou apreender algo, que eu não consigo. Então acho que a escrita também é sempre uma tentativa de alguma coisa. Fico pensando que escrever é como se aproximar daqueles dados de rpg, com todos aqueles lados, e eu fico ali tentando achar/criar/ver cada lado. Por exemplo, eu gosto muito de escrever olhando o sinônimos.com.br, a Wikipedia, thesaurus... Como se fosse buscando pontos diversos para acessar aquela coisa à qual estou querendo chegar.

3. Como suas leituras se concatenam com sua escrita?
Essa é difícil, porque fico aqui olhando para os últimos meses em termos de leituras e tentando capturar algum tipo de lógica para conseguir estabelecer as relações com a escrita - mas meu mundo de leituras é o caos. Eu leio muita coisa ao mesmo tempo, deixo livros pra lá e retomo milênios depois, e pra piorar no último ano ando sem pudores e nem acho que terminar de ler um livro é assim tão obrigatório. Acredito que isso tem a ver com o tipo de texto para o qual fui caminhando, que é muito mais do ensaio, da poesia, coisa que não exige tanto a leitura corrida do começo ao fim de um fôlego só. Acabo procurando ler o que me instiga a pensar aquele tema que estou remoendo e que pode virar algo escrito ou não.

4. O que é difícil na escrita? E o que é fácil?
Escrever é um ato simples, ainda que não natural. É fácil porque é algo que a gente já faz o tempo todo, mas sem pensar na escrita mesmo. Papel e caneta já são suficientes, mas hoje em dia também dá pra escrever em qualquer lugar em movimento, porque a gente simplesmente digita. Então é algo fácil, dá pra ir escrevendo absolutamente tudo o que vier na cabeça como naquele exercício de escrita automática. O que é difícil pra mim é tentar chegar no ponto sem chegar propriamente no ponto. Talvez esteja confuso, mas o que quero dizer é que o difícil é isso mesmo: ficar rondando, com o texto ou em texto, uma área mais ou menos delimitada, sem abrir demais e também sem apontar diretamente para qualquer coisa, porque aí o texto fecha, aprisiona ao invés de abrir e duvidar. Acho difícil esse exercício de aproximação sem sufocar e matar a coisa.

5. Escrever, para você, é uma necessidade?
Quando comentei com uma amiga o quanto escrever estava sendo transformador e que talvez eu devesse mesmo fazer isso, ela me fez exatamente essa pergunta. Porque todos os escritores dizem que sim, que é. Eu senti como uma prova, como se ela indicasse que eu só estava empolgada, como eu fico com tantas coisas (e largo pra lá), porque de jeito nenhum escrever é uma necessidade, eu vivi mais de 30 anos sem isso. Cheguei a procurar no Google sobre escritores que tinham começado a escrever só tarde na vida, sobre artistas que iniciaram na atividade muito mais velhos, e fiquei tranquila, mas não muito, porque eles existem, é claro que existem, mas não são lá tantos e de qualquer maneira os que eu mais admiro e me sinto próxima não são esses casos tardios - mas nesse ponto percebi que estava obsessiva e resolvi parar. Escrever não é uma necessidade e desde que fechei esse livrinho que está saindo agora eu já fiquei vários períodos razoavelmente longos sem escrever nada. Acho que escrever é uma parada, como se eu me detivesse num ponto para pensar, mas ao mesmo tempo que olho eu tenho a liberdade de construir também aquilo que estou observando. Isso tudo para dizer que não é uma necessidade, mas me abre a possibilidade de ver mais.